quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Angústias de João


Ele pensou que estava sentindo-se bem, andando por aquela paz que preenche os corredores imagináveis de bosques verdes e cheios de vida, mas naquele dia percebeu que não passava de momentos. Não sabia ele se pelo não desfruto do prenúncio de morte, ou se por uma sucessão de fatores somados a este.

Mas o orvalho daquela manhã não lhe ofereceu nenhuma bandeja com frutos coloridos ao despertar. Acordou em meio às inquietações de um eu e seu mundo externo. E assim passou o dia, crescido de pequenas “perturbações”, e das mais evidentes de todas, do coração.

Preencheu toda agonia, com novas e velhas dúvidas, deixou o desejo e a vontade agirem, sem obter, nenhum sucesso. A impaciência e a inconformidade só aumentavam, e como a metamorfose em que passa uma larva ao torna-se borboleta, nasceu certa raiva. Raiva e dor do próprio ser, raiva e dor do alheio, na tentativa do desafeto.

Dias antes ele havia mirado uma película com amigos de longas datas. E como nunca, viu-se tão projetado, como se fosse um espelho da própria alma. As horas passavam e a vontade sem limites de devorar a obra na qual foi baseada, era imensa, quase um deserto. Até saciar um pouco sua sede ao encontrar fragmentos no mundo virtual. Passou não só a se identificar como, a relembrar, e perceber determinados atos. Como se traduzisse de maneira inconteste aquela parte que ninguém menciona da alma, e que parece que deve ficar sem nenhuma manifestação, oculta na multidão.

Hoje correram todos os sentidos em suas veias e uma explosão de sentimentos que habitaram por longos segundos. Alguns cutucaram e procuraram até o fim do beco um homem esquecido no tempo: suas ações, vontades e atitudes firmes perante aos detalhes que lhe faziam feliz. Outros trouxeram certezas próprias comparando certezas daqueles que não conseguem olhar e ver o mundo do outro, tal qual como ele realmente é, e assim aceita-lo em sua grande parte. Vivemos nas diferenças, em constantes trocas diferentes, seguindo a condição do espaço comum.

Na fúria incessante, em determinado momento, ele desfez de coisas, com propósitos de esquecer outras, de retomar a razão e o pulso, porque ser o 8 não estava lhe trazendo boas colheitas. Talvez não fosse o certo, mas era o que ele tinha para o momento. Perguntou-se por várias vezes em intervalos, às vezes impróprios, se suas peripécias seriam realmente irreais ou se os olhares e ouvidos que lhe cercavam não eram rígidos demais. Ou como diz a Júlia – ¹[...] “Paciência. Não sou exercito para acreditar em manobras, só acredito nas vontades”. As nossas vontades movem o mundo..

Perdido, nos pensamentos e no sentir diverso recordou de certa conversa,assim como de outras que não se encaixam a primeira, e por instantes fazia conclusões imprecisas, de como era fácil atingir um soldado quando está ferido. Já devia estar escrevendo coisas sem sentidos, fuçou alguns papeis e sentiu falta da escrita. Sentiu o quão se encontrava vulnerável às determinadas palavras acompanhadas de suas ações. E a consciência o questionava:

- Porque parou de escrever....(silêncio)....mas porque?!?

E pensou:

- Pela vulnerabilidade em que me encontro e posição inerte que tomei, diante de...de...

Júlia o interrompe:

- ² [...]A caixa preta onde se originavam meus mitos está fincada no solo do naufrágio...o mar interno que habita um corpo humano é tão urgente quanto o Mar de Fora ...

Ficou perdido em seus pensamentos, enquanto olhava a chuva pela janela do seu quarto.O silêncio tomou o lugar.Já não sabia o que mais queria. Não queria passar por tudo outra vez. Tomo-lhe meio litro de coragem e seguiu sua vontade.Mais tarde, em meio a noite que se ia no caminho de casa ligou contente para Júlia dizendo que tudo se resolvera e aquele homem esquecido no tempo agora era presente e despediu-se.


¹ e ² -Myriam Campello,in:" Como esquecer- Atonações quase inglesas".2003

Nenhum comentário:

Postar um comentário